
Ubirajara Gomes da Silva passou na 136ª posição, entre 171 classificados para Recife.
Ele carregava pasta com cópias de apostilas e provas e estudava em praças e bibliotecas.
Marta Cavallini
Diário de Pernambuco
Ubirajara diz que prestou cinco concursos em dois anos. Enquanto vivia de fazer bicos e pedir esmola, Ubirajara Gomes da Silva, de 27 anos, passou quase um ano carregando pelas ruas do Recife uma folha de papel dobrada com o comprovante de classificação no concurso do Banco do Brasil.
Neste mês, foi convocado para assumir o cargo de escriturário, cujo salário inicial é de R$ 942,90, mais gratificação de 25%.
Silva ficou na 136ª posição, entre 171 classificados para trabalhar no Recife. A aprovação no concurso não significa apenas um emprego para ele. Morador de rua há 12 anos, Silva finalmente vai realizar o desejo de ter um lar.
Nas últimas semanas, ele tem vivido dias de "celebridade" nas ruas da capital pernambucana e também no site de relacionamentos Orkut – quase 400 recados foram postados em seu perfil com saudações pela conquista e votos de boa sorte, principalmente de candidatos a concursos.
Mas como um morador de rua tem um perfil no Orkut? Silva diz que costuma usar computadores em bibliotecas públicas e lan-houses que cobram preços baixos pelo uso. “Eu escolho entre comer ou acessar a internet”, conta.
Foi pela rede mundial de computadores que ele leu o edital do concurso, conseguiu material de estudo e trocou informações com outros candidatos. E foi também pela internet, em setembro do ano passado, que ele ficou sabendo que havia sido classificado no concurso. A boa notícia veio três dias antes de ele completar 27 anos.
O concurso teve mais de 19 mil candidatos inscritos. A prova, realizada em agosto do ano passado, tinha 150 questões – ele acertou 116. Mas antes de tentar entrar no Banco do Brasil ele já havia prestado quatro concursos nos últimos dois anos – sempre para o cargo de auxiliar administrativo, de nível médio.
“As pessoas me diziam para prestar para cargos de nível fundamental, mas eu sabia que podia tentar para nível médio”, diz.
Silva sempre carregava uma pasta cheia de cópias de apostilas e provas anteriores e estudava em praças e bibliotecas.
Silva diz que fugiu da casa onde morava com a avó materna e quatro irmãos aos 15 anos. Ele estava na 6ª série, em 1995. Em 2001, decidiu voltar a estudar e recebeu diploma de ensino médio após ser aprovado no supletivo. Ele diz que passou a ler até três jornais diários de grande circulação por dia, além de livros sobre economia, um de seus assuntos preferidos.
Silva pensa em fazer universidade. Suas preferências são pelos cursos de ciências contábeis, economia e administração. “Esses cursos podem ajudar bastante o trabalho no banco”, diz.
Há até alguns dias atrás, Silva vivia na esquina da rua da Amizade com rua das Pernambucanas, no bairro das Graças, perto da região central de Recife. Agora, um amigo que ele conheceu pela internet ofereceu abrigo em sua casa até que ele consiga uma casa para morar.
Esse mesmo amigo, que também passou em um concurso público, mas ainda não foi chamado, pagou a parte de uma dívida de Silva para limpar o nome dele no Serviço de Proteção ao Crédito (SPC), uma das exigências especificadas nos editais do BB para que os candidatos possam assumir o cargo. A outra parte do empréstimo Silva parcelou em 60 vezes e pretende pagar com o salário que passará a receber.
De acordo com o Banco do Brasil, se Silva fizer todos os exames médicos necessários e providenciar toda documentação até a semana que vem, ele assumirá o cargo de escriturário no dia 7 de julho, no Centro de Operações do BB, localizado no bairro Recife Antigo. Silva afirma que fará cabelo e barba e irá vestido com a roupa nova que ganhou de amigos. (*)
(*) Esta notícia nos mostra como é possível uma pessoa vivendo em situação precária poder lutar e conseguir superar obstáculos que, à primeira vista, poderiam parecer intransponíveis. É uma lição de que a nossa sociedade livre permite o progresso individual e a ascensão social, desde que a pessoa queira e lute para tanto. Se cada um destes biscateiros, camelôs e flanelinhas buscasse se espelhar no exemplo de Ubirajara, nosso país seria um país mais desenvolvido. Por isso digo que não há como concordar com o discurso paternalista de esquerda, de que estes "coitadinhos" não tiveram chance na vida e devem receber esmolas públicas por parte de programas assistencialistas do governo. Trata-se tal notícia de um tapa na cara das esquerdas: um exemplo de alguém que não precisou de favores do governo, Bolsa Família por exemplo, e escolheu lutar com suas próprias forças para conseguir um lugar ao sol. Esse "coitadismo" ajuda a corromper os valores sociais e morais do nosso país. Além disso, a própria solidariedade não precisa ser estatizada, como visto pelo exemplo do amigo de Ubirajara. A melhor ajuda já é dada: escolas, universidades e bibliotecas públicas, todas com internet. Basta querer.



