quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Uma apologia ao preconceito

Roberto Cavalcanti

Essa pequena dissertação pretende discutir, sob uma ótica filosófica, a problemática do preconceito. Trata-se de um tema em bastante evidência na sociedade contemporânea, tendo em vista que o termo “preconceito” é um chavão recorrente em discussões no sentido de travar determinadas opiniões.

CONCEITO DE PRECONCEITO

Em teoria, o preconceito em si não é bom nem mau. Pode ser certo ou errado, conforme ele venha a se aproximar ou não de um conceito. Por isso o preconceito só possui valor prático. O preconceito funciona como um juízo pré-concebido; como uma idéia não muito amadurecida sobre determinado objeto, muito aproximada da idéia de estereótipo. Um estereótipo não é o preconceito em si, mas uma espécie do gênero preconceito.

O estereótipo comumente se baseia num juízo formado acerca de determinado fato pela sua observação sistemática e repetitiva.

Segundo o sociólogo judeu Steven Goldberg:

“O estereótipo é originado de alguma realidade; não é arbitrário. [ ] Estereótipos são figuras abstraídas da realidade; elas são versões da quintessência da realidade e devem representá-la. Isso não quer dizer que estereótipos não podem mudar; eles podem mudar, tanto quanto as realidades que eles representam.” [1]

[...]

“Nenhum estereótipo é 'arbitrário' ou incorreto como observação; todo estereótipo é 'real' naquilo que observa como comportamento ou proprensão que é, em realidade, mais associado com o grupo estereotipado do que com outros grupos (quais sejam suas causas).” [2]

[...]

“Ignorar o estereótipo para pretender que não seja verdade no sentido que nós discutimos, ou assumimos sem evidência que o comportamento observado deva ter uma explicação puramente social, é proceder na direção oposta daquela que a ciência reclama. A ciência reclama que nós façamos observações e então tentemos explicá-las pela evidência, não pelo desejo e ideologia.” [3]

PRECONCEITO ENQUANTO TÉCNICA DE ENGENHARIA SOCIAL

Existem técnicas de engenharia social no sentido de se cultivar socialmente certos lugares-comuns para inviabilizar uma discussão mais profunda sobre determinado tema. A palavra “preconceito” responde hoje a tal lógica.

A palavra “preconceito” virou uma espécie de mantra politicamente correto. É utilizada de forma tão recorrente para censurar a veiculação de determinados argumentos, que vem funcionando hoje quase como um reflexo incondicionado destinado a silenciar interlocutores. Como um clichê socialmente recorrente, trata-se de um mecanismo de exclusão sumária dos dissidentes do pensamento dominante, em outras palavras, uma heresia politicamente correta.

Assim, quando, por exemplo, certos temas polêmicos são abordados, havendo determinado juízo de valor, como, por exemplo, ao se dizer que os homens são mais inteligentes que as mulheres e que homossexuais são mais promíscuos que heterossexuais, tal idéia vem a ser qualificada como “preconceituosa” ainda que estudos possam respaldar o argumento.

O TOLERANTISMO DO PRECONCEITO

Medidas como o desarmamento eram ostensivas, e visavam tornar a população refém do poder estatal. A cultura de tolerância, do combate ao preconceito e a torrente de imoralidades dela decorrente buscam reeducar o individuo; são técnicas de psicologia social, e por isso são ações de progresso lento, visando desarmar os espíritos em doses homeopáticas.

A ÉTICA POR TRÁS DO COMBATE AO PRECONCEITO

A roupagem ética do preconceito enquanto patrulhamento ideológico é o igualitarismo.
Isto porque a igualdade virou um princípio ético em praticamente todas as legislações dos países ocidentais. Há coerência, na medida em que a sociedade contemporânea é melhor compreendida como sendo uma sociedade de bem-estar, ou seja, uma sociedade em cujos objetivos encontra-se o de evitar a qualquer custo o menor dos sofrimentos, sob a alegação que todas as pessoas têm direito a ser “felizes”, não importando o seu modo de vida.

Assim, o igualitarismo é tolerante às diferenças e desigualdades, exceto, logicamente, a quem se oponha a tais misturas indiscriminadas, que é logo vítima da intolerância dos igualitaristas, com o rótulo de preconceituoso.

Fato é que a ausência de preconceitos conduz à ausência de distinções de qualquer natureza e vislumbra uma sociedade igualitária. Assim, induz-se promiscuidades de toda ordem sob o pretexto de combate ao preconceito.

Por isso a ética de combate ao preconceito é, via de regra, anti-aristocrática.

A demonização do preconceito responde pela ruptura com qualquer idéia de hierarquia, seja social, cultural ou moral, com vistas à produção de uma sociedade sem classes. Qualquer diferenciação valorativa deve ser abolida. Se procura abolir qualquer diferenciação valorativa, logicamente combate-se igualmente a moral.

Assim, no combate aos preconceitos combate-se a moral.

PRECONCEITO E CIÊNCIA

A ciência, regra geral, parte de determinadas observações preconceituosas. Isto porque o preconceito costuma ser uma etapa da produção de conhecimento. Funcionam como o núcleo da produção científica, pois cientistas costumam partir de pressuposições para confirmarem ou não uma tese, ou seja, através da produção científica, um conhecimento inseguro (preconceito) torna-se seguro (conceito). Minar o preconceito é minar a produção de conhecimento na sociedade.

PRECONCEITO E FILOSOFIA

Na "Política", afirmou Aristóteles que "se o homem, chegado à sua perfeição, é o mais excelente dos animais, também é o pior quando vive isolado, sem leis e sem preconceitos" . [4]

Isto é muito natural, pois o isolamento é causa de auto-destruição, a ausência de leis implica na preponderância perene do mais forte sobre o mais fraco e a ausência de preconceitos desmoraliza e desnorteia a sociedade.

PRECONCEITO E RELIGIÃO

A ética de combate ao preconceito é, como visto, uma retórica de fundo comunista, pois visa banir do nosso convívio a moralidade e substituí-la por uma ética igualitária.

Sem a separação clara dos bons e dos maus costumes, que ensejaria uma visualização clara dos bons e maus cidadãos, e nisso estabelecer discriminações, parece ter como seus fins últimos inviabilizá-las, proibindo toda sorte de proselitismos neste sentido.

Assim, representa uma séria ameaça à religião cristã, cuja missão proselitista foi delegada aos apóstolos por Cristo: “Ide, pois, e ensinai a todas as nações; batizai-as em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Ensinai-as a observar tudo o que vos prescrevi. Eis que estou convosco todos os dias, até o fim do mundo” (Mt 28, 19-20). Como, portanto, os cristãos haverão de ensinar se todos os preceitos da moral cristã serão classificados como “preconceituosos”?

A BÍBLIA E O PRECONCEITO

A religião cristã é uma religião repleta de toda sorte de discriminações e tem como base a Bíblia, como todos sabemos.

A Bíblia pode ser interpretada como um manual de preconceitos e discriminações. Obviamente, do ponto de vista teológico, na Bíblia não podem haver preconceitos propriamente ditos, pois a Bíblia é a Palavra de Deus, e Deus é onisciente. Sendo onisciente, Ele não pode conservar juízos pré-concebidos, já que Seu conhecimento é certo e seguro sobre todos os fatos sob Sua apreciação. No entanto, estes juízos podem humanamente ser interpretados como preconceitos. Como exemplos, determina a Bíblia em várias passagens que os judeus não se misturem aos outros povos. Determina também, que as mulheres não instruam os fiéis, mas que tal papel cabe aos homens. Como exemplos de discriminação, determina que separemo-nos dos infiéis (cf. II Cor. 6, 15-17), nem mesmo comer entre eles (cf. I Cor. 5, 11) ou saudá-los (cf. II Jo 1, 10). E diga-se mais: no paraíso operar-se-á uma verdadeira discriminação, separando-se as ovelhas dos cabritos (cf. Mt 25, 32-33).

PRECONCEITO COMO DIREITO NATURAL

Preconceituar é inevitável. Muitas das vezes uma inclinação instintiva, operando como um mecanismo de auto-defesa. Exemplos são inúmeros. Quando escolhemos previamente determinados locais a serem freqüentados ou pessoas a serem evitadas. Baseando-se na idéia de estereótipo, o ser humano tira conclusões antecipadas sobre determinado objeto e, com tais conclusões psiquicamente enraizadas, tende a tomar rápidas e objetivas decisões. Assim, o preconceito serve como norma de prudência para onde quer que rumamos.

CONCLUSÃO

Um grande malefício no combate aos preconceitos é o de minar a capacidade reflexiva do ser humano, por censurar seu espírito crítico. A capacidade crítica do ser humano é condicionada por certas barreiras que ele não pode romper, sob pena de chegar a conclusões ideologicamente indesejadas.

Uma pessoa sem preconceitos tenderá a ser promíscua em amizades e completamente imprudente.

[1] GOLDBERG, STEVEN. Why Men Rule, Open Court, 1993. p. 105
[2] Ibidem, p. 207-208.
[3] Ibidem, p. 198-199
[4] POLÍTICA, p. 15, Ed. Martin Claret, 2002

2 comentários:

  1. Preconceito é um juízo preconcebido, manifestado geralmente na forma de uma atitude discriminatória perante pessoas, lugares ou tradições considerados diferentes ou "estranhos". Costuma indicar desconhecimento pejorativo de alguém, ou de um grupo social, ao que lhe é diferente. As formas mais comuns de preconceito são: social, racial e sexual.

    De modo geral, o ponto de partida do preconceito é uma generalização superficial, chamada estereótipo. Exemplos: "todos os alemães são prepotentes", "todos os norte-americanos são arrogantes", "todos os ingleses são frios".

    Observa-se então que, pela superficialidade ou pela estereotipia, o preconceito é um erro. Entretanto, trata-se de um erro que faz parte do domínio da crença, não do conhecimento, ou seja ele tem uma base irracional e por isso escapa a qualquer questionamento fundamentado num argumento ou raciocínio.

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  2. O termo "preconceito" carrega em si forte negativa conotação semântica e por este motivo acaba embotando o raciocínio das pessoas.

    Nenhum preconceito é mau em si mesmo. Ele pode se tornar correto ou errado na medida em que se aproxima ou se afasta de um conceito. Se ele se aproxima de um conceito ele é correto. Se ele se afasta de um conceito ele é errado. Seu valor só pode ser tomado na ordem prática quando se aproxima ou se afasta de uma virtude. Exemplo: evito pitbulls por preconceito, sabendo de antemão que boa parte deles é violenta. Não há nenhum erro nisso, pois a experiência demonstra o acerto do preconceito. Do mesmo modo, o preconceito em questão é bom, pois se aproxima da virtude da prudência e do instinto auto-conservação, norma fundamental da moral.

    Como já foi dito, a pessoa que não tem preconceitos é completamente imprudente, pois o preconceito é algo que tem relação direta com o instinto de auto-conservação da espécie, sendo algo natural. Outro exemplo é que uma pessoa em seu juízo perfeito jamais contraria um ex-ladrão para tomar conta do caixa da sua empresa. Trata-se de um preconceito justo e legítimo. Nada pode provar que tal pessoa voltaria a delinqüir, mas é prudente que ela raciocine neste sentido.

    Nossas legislações estão fartas de preconceitos. Exemplos são múltiplos. A legislação de falência impõe proibição a uma pessoa condenada por crime falimentar a voltar a comerciar. A legislação administrativa federal proíbe um servidor condenado por improbidade administrativa a voltar ao serviço público. Pessoas com antecedentes criminais, outrossim, não podem tomar posse em certos cargos públicos. Enfim, os preconceitos são múltiplos e não se diga com isso que são errados.

    Preconceitos, enfim, só têm seu valor medido na ordem prática.

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