segunda-feira, 26 de setembro de 2011

A Igreja Católica condena o capitalismo

por Roberto Cavalcanti

NOÇÃO DE CAPITALISMO

O capitalismo é um sistema econômico baseado na racionalização dos meios de produção tendentes a acumular capitais em proveito do próprio sistema, retroalimentando-se, enfatizando o capital em detrimento do trabalho. É um sistema que tem como fim estabilizar-se na sociedade através de mecanismos como a livre iniciativa, a propriedade privada e, sobretudo, as leis de mercado, as quais são entronizadas como parâmetro de todas as coisas. É um sistema que busca a maximização dos resultados com a minimização dos esforços, sendo um sistema eficiente, embora desligado de premissas extra-econômicas.

Como já acentuei alhures, o capitalismo é condenável pela Igreja. Isto porque o capitalismo é um sistema econômico que tem como ideologia operante o liberalismo econômico, que por sua vez resulta na aplicação dos princípios do liberalismo filosófico na seara econômica, ou seja, fruto de uma concepção enganosa e desordenada de liberdade, entranhada no materialismo.

Da própria interpretação das Escrituras Sagradas é possível extrair a condenação deste sistema, por ser desordenado desde o princípio, já que inverte as premissas cristãs. No livro do Gênesis, é possível observar a primazia do trabalho: “Comerás o teu pão com o suor do teu rosto, até que voltes à terra de que foste tirado; porque és pó, e pó te hás de tornar.” (Gn 3, 19) Assim, também, nas Cartas Paulinas, tal premissa é reafirmada: “Quem não quiser trabalhar, não tem o direito de comer.” (II Ts 3, 10). Ora, se para o mínimo de subsistência o trabalho é imperioso, o que dirá para o acúmulo de um mínimo de capitais excedentes.

A CONDENAÇÃO AO PENSAMENTO LIBERAL

A ideologia operante do sistema capitalista - o liberalismo - foi condenada reiteradamente pela Igreja.

Leão XIII foi um grande adversário do espírito liberal. O Santo Padre acentua em sua Encíclica Libertas que as doutrinas mentirosas [tais como o liberalismo] devem ser refreadas pelo Estado, condenando como errônea a liberdade sem limites:

29. ... A verdade e o bem há o direito de os propagar no Estado com liberdade prudente, a fim de que possam aproveitar o maior número; mas as doutrinas mentirosas, que são para o espírito a peste mais fatal, assim como os vícios que corrompem o coração e os costumes, é justo que a autoridade pública empregue toda a sua solicitude para os reprimir, a fim de impedir que o mal alastre para ruína da sociedade.

(...)

63. ... E no que toca à tolerância, é estranho ver quanto se distanciam da justiça e da prudência da Igreja aqueles que professam o liberalismo. Com efeito, concedendo aos cidadãos, em todos os pontos de que acabamos de falar, uma liberdade sem limites, perdem por completo toda a norma e chegam ao ponto em que parece não haver mais atenções com a virtude e a verdade do que com o erro e o vício.

(...)

64. ... Negar essa soberania de Deus ou recusar a submissão a ela, não é liberdade, mas abuso de liberdade e rebelião; e é precisamente tal disposição da alma que se constitui e nasce o vício do liberalismo.”

Em sua Encíclica Quadragesimo Anno, Pio XI condena a ordem prática do liberalismo econômico de preconizar a emancipação da economia da moral:

41. Pois ainda que a economia e a moral se regulem, cada uma no seu âmbito, por princípios próprios, é erro julgar a ordem econômica e a moral tão afastadas e alheias entre si, que de modo nenhum aquela dependa desta.”

Pio XI chama de “monstruosidades” os princípios liberais de Manchester:

54. ...É bem verdade que as obras nem sempre estavam de acordo com semelhantes monstruosidades dos chamados princípios liberais de Manchester: não se pode, contudo, negar que para elas tendia com passo certeiro e constante o regime econômico e social. Por isso não é para admirar que estas opiniões errôneas e estes postulados falsos fossem energicamente impugnados, e não só por aqueles a quem privavam do direito natural de adquirir melhor fortuna.

Aqui, Pio XI condena a chamada “economia de mercado”, o que se dá quando os agentes econômicos agem de forma livre, sem a intervenção dos governos:

87. ... Como não pode a unidade social basear-se na luta de classes, assim a reta ordem da economia não pode nascer da livre concorrência. Foi com efeito, dela, como de fonte envenenada, que derivaram para a economia universal todos os erros da ciência econômica “individualista”; olvidando ou ignorando que a vida econômica é conjuntamente social e moral, julgou que a autoridade pública a devia deixar em plena liberdade, visto que a livre concorrência possuía princípio diretivo capaz de a reger mais perfeitamente que qualquer inteligência criada. Ora, a livre concorrência, ainda que dentro de certos limites seja justa e vantajosa, não pode de modo nenhum servir de norma reguladora à vida econômica.”

Aqui, novamente, Pio XI condena o espírito individualista do liberalismo:

108. As últimas conseqüências deste espírito individualista no campo econômico são essas que vós, veneráveis irmãos e amados filhos, vedes e lamentais: a livre concorrência matou-se a si própria; à liberdade do mercado sucedeu a hegemonia econômica; a avidez do lucro seguiu-se a desenfreada ambição de predomínio; toda a economia se tornou horrendamente dura, cruel, atroz.”

Pio XI enfatiza que a livre concorrência não deve ser deixada à mercê, e que deve ser regulada pela autoridade pública:

109. ... A livre concorrência contida dentro de justos e razoáveis limites e mais ainda o poderio econômico devem estar efetivamente sujeitos à autoridade pública, em tudo o que é de sua alçada. Enfim, as instituições públicas adaptarão a sociedade inteira às exigências do bem comum, isto é, às regras da justiça; de onde necessariamente resultará que esta função tão importante da vida social qual é a atividade econômica, se encontrará por sua vez reconduzida a ordem sã e bem equilibrada.”

A OBRA DE AMINTORE FANFANI

Amintore Fanfani foi um economista italiano do século passado, perito em Doutrina Social Católica. Em sua obra “Catolicismo, Protestantismo e Capitalismo”, este autor refuta as premissas segundo as quais o capitalismo seria conciliável com a Doutrina da Igreja.

Na sociedade católica medieval, tentar induzir os clientes a comprar e pagar agentes a detalhar as mercadorias aos clientes eram naquele tempo realmente contra a lei. Obviamente, tais leis não fazem sentido se não estiverem especificamente particularizadas à visão social católica. Preferia-se preservar o delicado balanço da parcela de mercado entre artesãos e negociantes, preservar uma razoável chance de todos viverem decentemente, com vistas a evitar uma indesejada concentração de riqueza e consolidação de empresas que é o indisputado resultado da puramente livre competição. Sob a antiga ordem, uma “liberdade” para adiantar-se aos competidores por quaisquer meios legais ou não era inadmissível. [1]

Isso não significa que hoje em dia seja pecaminoso empregar quaisquer técnicas de competição, simplesmente porque, sob o sistema capitalista, tais técnicas devem ser empregadas mesmo pelos filantropos se eles quiserem sobreviver. [2] Onde quer que a lei e o costume não colocavam restrições à atividade competitiva, a competição se tornou a lei da vida, revelando a verdadeira face do capitalismo “moral” e “socialmente consciente”. [3]

Não resta dúvida que o homem como trabalhador não é mais o sujeito da atividade econômica, procurando sua salvação enquanto pratique uma vocação ou negócio importante na comunidade, satisfazendo a alma; em vez disso, ele é uma mera mercadoria. [4]

O capitalismo moderno “como é atualmente praticado” não cessa com a mera venda de imoralidades, trivialidades e luxúrias. Ele particularmente bombardeia o pobre homem, de natureza fraca, com uma incessante torrente de lixo eletrônico, correspondências indesejadas, cintilantes comerciais de TV e anúncios de jornais e revistas, todos num esforço para criar uma necessidade para o que está sendo vendido, sem levar em conta se é moral ou não, saudável ou não, útil ou não. [5]

Que um tal sistema deva ser sustentado por propaganda efetiva e uma apologia bem elaborada, não é surpresa, pois sua inauguração também requereu uma campanha de persuasão ideológica e ação política. [6]

Os objetivos do capitalismo e do cristianismo são incompatíveis entre si em seus fins, pois, para o Cristianismo, o objetivo é a salvação, trazendo os homens mais próximos a Deus, enquanto para o capitalismo é produzir riqueza e utilidade de consumo, tornando-se barreiras para progredir mais intimamente a Deus (um ponto tornado abundantemente claro tanto no Antigo quanto no Novo Testamentos). [7] Enquanto Jesus ensinou que buscássemos o Reino de Deus e sua justiça para que, posteriormente, as coisas materiais de que temos necessidade nos fossem acrescentadas (cf. Lc 12, 31), o capitalismo ensina a buscar as coisas materiais como prioridade em nossas vidas, relegando o Reino de Deus a segundo plano.

Argumenta-se que a avareza promove progresso econômico e a criação de riqueza poderia ser precisa; mas para o cristão, o que é importante não é nem riqueza nem progresso econômico, mas particularmente o bem estar espiritual do indivíduo. [8] Amintore Fanfani escreve que: “a atividade econômica, como um aspecto da ação humana para o atingimento dos fins humanos, deve tomar lugar no interior da esfera moral, que é circunscrita por costumes sociais, regulações políticas e princípios religiosos.” [9] Tudo isto, porém, é abdicado pelo capitalismo. Acrescenta ele que:

Na medida em que o código moral do capitalista não impõe qualquer limitação sobre o uso de meios legais e úteis, a característica primária do espírito capitalista é o uso ilimitado de todos os meios de adquirir riqueza que sejam acreditados ser moralmente legais e economicamente úteis. O capitalista não rejeita considerações morais. Ele adota um código moral de seu domínio, que, enquanto declara certos meios ilegais, não limita o uso daqueles meios que são reputados legais.” [10]

O espírito pré-capitalista da sociedade medieval não era o de racionalizar a acumulação de riquezas, objetivo central do capitalismo. Escreve Fanfani que:

Em geral, a aspiração dos europeus medievais não os conduzem a procurar uma racionalidade puramente econômica no desenvolvimento da vida econômica. Pelo contrário, mesmo na vida econômica, especialmente em seu aspecto público, o critério direcionador não é sempre econômico. Mais freqüentemente eles são extra-econômicos – moral, político, religioso – e intervêm para limitar a influência dos padrões econômicos na seleção de meios e nos propósitos e intensidade de seu uso.

(...)

A era pré-capitalista é o período no qual definidas instituições sociais, tais como, por exemplo, a Igreja, o Estado, a Guilda, agem como guardiões de uma ordem econômica que não é baseada no critério de utilidade econômica individual.” [11]

Essa racionalização é da própria natureza do liberalismo, como acentua Leão XIII na Encíclica Libertas:

30. Ora, o princípio de todo o racionalismo é a supremacia da razão humana, que, recusando a obediência devida à razão divina e eterna, e pretendendo não depender senão de si mesma, se arvora em princípio supremo, fonte e juiz da verdade. Tal é a pretensão dos sectários do liberalismo, de que falamos, não há, na vida prática, nenhum poder divino ao qual se tenha de obedecer, mas cada um é para si a sua própria lei.”

Leão XIII condenou na sua Encíclica Quod Apostolici Muneris o desejo desenfreado de bens terrenos como raiz de todos os males, o qual encontra no capitalismo sua mais fiel expressão:

3. Tomados pelo desenfreado dos bens terrenos ‘que é a raiz de todos os males, e por causa do qual alguns se afastaram da fé’...” (I Tim. 6, 10)

Pio IX, em sua Encíclica Quanto Conficiamur Moerore, reafirma a citação de Leão XIII:

6. ... Pensem com diligência no que ensina o apóstolo Paulo: “Os que querem enriquecer caem na tentação e na cilada do diabo, e em muitos desejos insensatos e perniciosos, que mergulham os homens na ruína e na perdição. A raiz de todos os males, afinal, é o amor ao dinheiro, por cujo desenfreado desejo alguns se afastaram da fé, e a si mesmos se afligem com múltiplos tormentos” (I Tim. 6, 9-10).

Mas talvez a mais incisiva condenação ao capitalismo encontra-se na Encíclica Menti Nostrae do Papa Pio XII:

Outros, porém, se mostram tímidos e incertos quanto ao sistema econômico conhecido pelo nome de capitalismo, do qual a Igreja não tem cessado de denunciar as graves conseqüências. A Igreja, de fato, apontou não somente os abusos do capital e do próprio direito de propriedade que o mesmo sistema promove e defende, mas tem igualmente ensinado que o capital e a propriedade devem ser instrumentos da produção em proveito de toda a sociedade e meios de manutenção e de defesa da liberdade e da dignidade da pessoa humana. Os erros dos dois sistemas econômicos e as ruinosas conseqüências que deles derivam devem a todos convencer, e especialmente aos sacerdotes, a manter-se fiéis à doutrina social da Igreja e a difundir-lhe o conhecimento e a aplicação prática.”

De acordo com o sistema das Guildas ou Corporações, a competição era restrita, a distribuição de clientes, conseguintemente um mínimo de trabalho, era assegurada; um certo sistema de trabalho era compulsório; comércio com vários grupos poderia ser proibido por razões políticas ou religiosas; certas práticas eram compulsórias, e trabalhar horas era limitado; havia um número de festas compulsórias; preços e taxas de crescimento eram fixadas; medidas eram tomadas para prevenir a especulação. Todas essas instituições e muitas outras que nós poderíamos citar revelam a influência de idéias extra-econômicas. [12]

É digno de nota que nos primeiros dias do capitalismo, o empregador que demandava um dia de trabalho de, em geral, doze a dezesseis horas, não tinha qualquer preocupação com a saúde do trabalhador. [13]

Enquanto a ordem católica é uma ordem sobrenatural, a ordem capitalista é uma ordem racional no sentido do Iluminismo. O Estado Laico, condenado pelo Papa São Pio X em sua encíclica Vehementer Nos [14], é obra do espírito capitalista. Como destaca Fanfani:

Demais a mais, quando comunidades cristãs são fendidas em partes pela heresia, o capitalista ataca a religião por uma outra razão, pois se diversidade de credo é tão penetrantemente fraca, pode criar obstáculos para a expansão da vida econômica. Mesmo nos séculos de transição, os mercadores cristãos de Tunis sentiram a mesma necessidade pela indiferença religiosa, e deportaram os monges franciscanos, que pregando ameaçavam destruir um lugar que era altamente propício para o comércio.” [15]

O TRIUNFO DO CAPITALISMO COMO PARTE DO ESPÍRITO JUDAICO

O espírito judaico sente-se fortalecido onde quer que haja diversidades de todos os gêneros, como descrito na obra Cultura of Critique de Kevin Mc Donald, citando uma notável passagem de Charles Silberman:

"Judeus americanos estão comprometidos com a tolerância cultural por causa da sua crença - firmemente enraizada na história - de que os judeus estão seguros somente numa sociedade receptiva a uma vasta gama de atitudes e comportamentos, assim como uma diversidade de grupos étnicos e religiosos. É esta crença, por exemplo, e não a aprovação da homossexualidade em si, que leva uma maioria absoluta de judeus americanos a apoiar 'direitos gays' e tomar uma posição liberal na maior parte das assim chamadas 'questões sociais'". [16]

O historiador Paul Johnson explica esse comportamento deletério do judeu em relação à sociedade tradicional:

O que é igualmente importante é que os judeus reagiam com rapidez a fenômenos e situações inteiramente novos. Sua religião os ensinava a raciocinar. O capitalismo, em todos os seus estágios de desenvolvimento, progrediu racionalizando e assim aperfeiçoando os casos de métodos existentes. Os judeus podiam fazer isso porque, embora intensamente conservadores (via de regra) dentro de seu próprio mundo estreito e isolado, não tinham parte na sociedade como um todo nem com ela tinham um compromisso emocional, e podiam assim, sem dor, verem: demolidos suas tradições, métodos e instituições – podiam, com efeito, representar um papel de comando no processo de destruição. Eram assim empresários capitalistas naturais.” [17]

Marx destacara acertadamente, em sua obra “A Questão Judaica”, que o deus dos judeus é o dinheiro; a traficância:

Qual a base profana do judaísmo? A necessidade prática, o interesse pessoal. Qual o culto mundano do judeu? A traficância. Qual o seu deus mundano? O dinheiro.

Então continuemos! Ao emancipar-se do tráfico e do dinheiro e, portanto, do judaísmo real e prático, em nossa época conquistará a própria emancipação.
Uma organização da sociedade que abolisse os pressupostos da traficância e, conseqüentemente, a própria possibilidade de traficar, tornaria impossível a existência do judeu.”

...

“O judeu, que é simplesmente tolerado em Viena, por exemplo, determina a sorte de todo o império pelo seu poder financeiro. O judeu, que pode encontrar-se totalmente sem direitos no menor Estado germano, decide o destino da Europa.”

...

“O judeu emancipou-se à maneira judaica, não só pela aquisição do poder do dinheiro, mas também porque o dinheiro, por meio dele e independentemente dele, se tornou um poder mundial, enquanto o espírito judaico prático se tornou o mesmo espírito prático das nações cristãs. Os judeus emanciparam-se à medida que os cristãos se tornaram judeus”. [18]

O sistema capitalista revela, portanto, o triunfante espírito judaico e racionalista.

De acordo com o insuspeito Paul Johnson em “História dos Judeus”, os judeus estiveram na vanguarda do capitalismo:

Os judeus inventaram os títulos ao portador, outro meio impessoal de mover dinheiro”.

(...)

Os judeus dominaram a bolsa de valores de Amsterdã, onde possuíam grandes quantidades de ações correspondentes às Companhias das Índias Ocidentais e Orientais, e foram os primeiros a dirigir um comércio em larga escala de títulos de crédito”. [19]

Segundo Werner Sombart, os judeus romperam com o comércio medieval e substituíram-no pelo capitalismo moderno, em que a contribuição era ilimitada e agradar ao cliente era a única lei. Paul Johnson, igualmente, confirma isso. [20]

A propaganda de produtos era proibida. Esta foi uma inovação judaica. [21]

Um regulamento de Paris de 1761 chegou a proibir os negociantes de ‘competirem tentando angariar fregueses’ ou de ‘distribuir prospectos que chamem atenção para o que têm a vender’. Os judeus figuravam entre os líderes em exibição, publicidade e promoção”. [22]

Além disso, Sombart identifica o puritanismo nórdico, herdeiro direto de Lutero e Calvino, como apenas uma forma variante de judaísmo. Esse tipo de pensamento que, de certa maneira, tem uma conexão com a “Ética Protestante” de Weber, frutificou também em influência a intelectuais dos quatro cantos do planeta (inclusive entre liberais).

Sobre esta influência manifesta, citemos alguns excertos de Miguel Reale:

Werner Sombart e Max Weber nos mostram como a origem do capitalismo está intimamente ligada aos dois acontecimentos da reforma protestante e da transferência dos judeus para a Europa Setentrional”.

(...)

O primeiro desses escritores põe, com razão, em evidência a identidade existente, sob o ponto de vista econômico, entre judaísmo e puritanismo”. [23]

E prossegue Reale:

O racionalismo, o ascetismo, a submissão calculada, a paciência, a abstinência tudo enfim faz do judeu e do puritano o eixo do Capitalismo em formação”. [24]

O publicista judeu Bernard Lazare, uma notável inteligência israelita e um escritor que viveu até o início do século passado, reconhecido em França como o mais importante defensor da causa judaica atuante no conhecido caso Dreyfus, citou a importância do trabalho de sapa dos filósofos racionalistas judeus entre os séculos X ao XV inspirados numa glosa do tratado Bába-Mézia do Talmud, fonte do chamado neomessianismo, que reza assim: "A razão não está mais oculta no céu. Não é mais no céu que está a lei. A lei foi dada a Terra e convém à razão humana compreendê-la e aplicá-la".

Com efeito, o capitalismo é racionalista, na medida em que o processo capitalista se emancipa de regramentos morais e religiosos, se especializa em transformar a acumulação de capital numa mera técnica.

Que alguns batizados católicos agiram de maneira contrária ao catolicismo, promovendo o espírito do capitalismo, não vem a significar que agiram em conformidade com a ética social católica. A responsabilidade, pois, repousa não no catolicismo enquanto doutrina, mas em alguns indivíduos que se identificavam como “católicos”.

Como destaca Fanfani, os capitalistas requerem, antes de tudo, um Estado que livre suas ações da influência dos padrões religiosos, tal como eles têm realizado em suas vidas econômicas particulares. Ele reclama que o Estado deveria proclamar e garantir a liberdade de consciência, de forma que sua ação não venha mais a ser algemada, direta ou indiretamente, por considerações de uma ordem religiosa. [25]

AS CONDENAÇÕES DA IGREJA À USURA

A Igreja sempre condenou a usura como prática moralmente inaceitável, tal como observamos abaixo:

Papa Leão Magno I, Carta “Ut nobis gratulationem”, de 10 de outubro de 443
“(Cap. 4) Julgamos também dever advertir que nenhum clérigo, nem em seu próprio nome, nem em nome de outra pessoa, procure tirar rendimento de juros, pois é inadmissível praticar um crime para o proveito de outrem. Devemos, ao contrário, considerar e praticar somente aquele empréstimo a juros no qual o que aqui emprestamos com misericórdia, o podemos reaver junto àquele Senhor que retribuirá em múltiplo e para sempre.” [26]

Papa Alexandre III, Sínodo de Tours, 19 maio de 1163

“(Cap. 2) Vários clérigos, e o dizemos chorando, também entre aqueles que com voto e hábito se retiraram do presente mundo, enquanto aborrecem as usuras comuns, porque mais manifestamente condenadas, quando emprestam dinheiro aos indigentes tomam como penhor as suas posses e se apropriam dos provenientes frutos para além do capital emprestado.” [27]

Papa Urbano III, Carta “Consuluit nos”

Como, pois, se sabe com clareza a que se ater, pelo evangelho de Lucas, que diz: ‘Emprestai sem esperar nada em troca’ [Lc 6, 35], deve-se julgar que homens assim, por causa de sua intenção de lucro – sendo proibidos na lei toda usura e lucro excessivo -, agem erroneamente e, no juízo das almas, devem ser induzidos a restituir o que em tal modo tenham recebido.” [28]

Papa Clemente V, Concílio de Vienne, 3ª sessão, 6 de maio de 1312, Constituição “Ex gravi ad Nos”

... Se alguém tiver caído nesse erro, a ponto de ousar afirmar com pertinácia que praticar a usura não é pecado, decretamos que deva ser punido como herege.” [29]

Papa Bento XIV, Encíclica “Vix pervenit”, 1º de novembro de 1745

(§ 3). 1. [Conceito de usura]: Aquele gênero de pecado que se chama usura e que no contrato de empréstimo tem sua sede e lugar próprios, consiste nisto, que alguém pretende que do empréstimo – que por sua natureza quer a restituição só daquilo que foi recebido – lhe seja devolvido mais do que o recebido, e por isso acha que, além do capital, lhe é devido um certo ganho por causa do próprio empréstimo. Por isso, todo lucro dessa espécie que supere o capital é ilícito e usurário.

...

...

É evidente que age contrariamente à lei do empréstimo – que necessariamente consiste na igualdade do que é dado e do que é restituído – todo aquele que, uma vez estabelecida tal igualdade, não fique envergonhado de exigir de quem quer que seja, em virtude desse empréstimo já ressarcido com soma igual à emprestada, ainda alguma coisa a mais: e por isso, se recebeu, será obrigado a restituir, pela cláusula da assim chamada justiça comutativa, que tem a propriedade não só de garantir escrupulosamente, nos contratos humanos, a igualdade própria de cada um, como também de fazer reparar com exatidão quanto não tenha sido mantido.” [30]

Glick cita uma carta do Papa Inocêncio III queixando-se "amargamente que os Judeus arrancam 'não somente usura, mas usura sobre usura' (non solum usuras sed usuras usurarum), seu termo para juros compostos. [31]

Entretanto, a lei contra a usura não somente foi abolida pelas nações que abraçaram o sistema capitalista, como transformou-se no próprio sine qua non do capitalismo financeiro, dominado sobretudo por oligarquias bancárias.

OS EFEITOS DO CAPITALISMO SOBRE A SOCIEDADE MEDIEVAL

A atmosfera numa sociedade capitalista é cada vez menos religiosa. Feriados religiosos não são mais reforçados pelo Estado, que cria os seus próprios. Em uma palavra, as leis civis tendem menos e menos a reforçar o respeito de prescrições eclesiásticas, e se tornar cada vez mais delas independente. [32]

Uma das atitudes mais anti-capitalistas da Igreja foi a demanda por uma legislação social. Como descreve Fanfani, significou o não reconhecimento da autonomia do sujeito econômico, uma negação da dominação da lei do risco, uma fala renovada dos deveres sociais implicados pela propriedade, um reconhecimento que o Estado tem uma faculdade de intervenção sobre e acima das concessões dos cidadãos. Significa, demais a mais, uma declaração que a verdade da doutrina liberal e capitalista não é para ser reconhecida; que a harmonia dos interesses somente pode brotar de uma troca de colaboração positiva, em que não somente o homem com o capital, mas mesmo o homem que não tem nada, mas sua própria personalidade a defender, é chamado a desempenhar seu papel. Que o total bem-estar da comunidade não brota da atividade do empregador, a não ser que a comunidade como um todo goze de uma vida rica e próspera e é adequadamente protegida do desempenho de interesses puramente econômicos. Que o temor da perda econômica não seja uma razão suficiente para impedir a realização de interesses mais altos. [33]

Na Idade Média, apoiando a intervenção dos corpos públicos na vida econômica como um controle à atividade individual e para defender os interesses da sociedade como um todo; chamando o Estado a intervir por alguns razões, a Igreja permaneceu fiel a sua ética anti-capitalista. [34]

O capitalismo cumpre por permutar o princípio regente de uma sociedade católica pela veneração ao capital. Com efeito, está escrito: “Tudo quanto fizerdes, por palavra ou por obra, fazei-o em nome do Senhor Jesus, dando por ele graças a Deus Pai.” (Cl. 3, 17) Não é este o princípio reitor do capitalismo, pois as coisas não são feitas em nome da religião, mas tem como escopo o egoísmo humano na acumulação de riquezas.

A OPINIÃO DE SÃO TOMÁS DE AQUINO

São Tomás escreveu na Summa Theologica o que se segue:

Se os próprios cidadãos devotam sua vida a matérias dos negócios, o caminho será aberto a muitos vícios. Na medida em que a principal tendência dos negociantes é fazer dinheiro, avareza é despertada nos corações dos cidadãos através da busca do comércio. O resultado é que tudo na cidade se tornará venal; a boa fé será destruída e o caminho aberto a todos tipos de fraudes; cada um trabalhará somente para seu próprio proveito, desprezando o bem público; o cultivo da virtude fracassará, visto que a honra e a recompensa à virtude, serão entregues aos ricos. Assim, em uma tal cidade, a vida cívica necessariamente será corrupta.” [35]

As palavras acima de São Tomás parecem proféticas. Com efeito, no sistema triunfante do capitalismo, o ser humano volta todas suas energias intelectuais para a acumulação de capital, relegando a terceiro plano os eventuais obstáculos morais e religiosos, de modo que o próprio tempo acabou se convertendo num custo de oportunidade para ganhos (time is Money), algo impensável numa sociedade católica. O mal não repousa, entretanto, na posse das riquezas, mas em convertê-las no fim da vida. Nisso, todos os escolásticos concordam, desde São Tomás a Santo Antonino de Florença e o Cardeal Gaetano. [36]

Também na Summa, São Tomás expressa-se que a preocupação a respeito de coisas temporais pode ser ilegal em três caminhos:

Primeiro da parte do objeto da preocupação, isto é, se nós procuramos coisas temporais como um fim... Em segundo lugar... através de demasiada seriedade no esforço de obter coisas temporais, o resultado sendo que um homem atraído pra fora das coisas espirituais que devem ser o objeto chefe de sua procura... Em terceiro lugar, através de temor exagerado, quando, para graça, um homem teme carecer de coisas necessárias, se ele faz o que ele deveria fazer.” [37]

São Tomás escreveu também na Summa que “o propósito da lei humana é conduzir os homens gradualmente à virtude” [38], o que contraria frontalmente o espírito de um estado capitalista, que enfatiza a liberdade e a igualdade de todos diante do mercado.

Conclusivamente, resta mais do que demonstrada a incompatibilidade do espírito do capitalismo com a doutrina social católica.

Notas:

[1] FANFANI, Amintore. Catholicism, Protestantism and Capitalism, IHS Press, 2003, p. 16
[2] Ibid. p. 17
[3] Ibid. p. 18
[4] Ibid. p. 23
[5] Ibid. p. 24
[6] Ibid. p. 25
[7] Ibid. p. 30
[8] Ibid. p. 36
[9] Ibid. p. 58
[10] Ibid. p. 59
[11] Ibid. p. 71
[12] Ibid. p. 72
[13] Ibid. p. 76
[14] “6. Que seja preciso separar o Estado da Igreja, é esta uma tese absolutamente falsa, um erro perniciosíssimo. Com efeito, baseada nesse princípio de que o Estado não deve reconhecer nenhum culto religioso ela é, em primeiro lugar, em alto grau injuriosa para com Deus; porquanto o Criador do homem também é o Fundador das sociedades humanas, e conserva-as na existência como nos sustenta nelas. Devemos-lhe, pois, não somente um culto privado, mas um culto público e social para honrá-lo.”
[15] FANFANI, Amintore. Op. cit. p. 93
[16] MAC DONALD, Kevin. The Culture of Critique, 1st Books, 2002, p. 85
[17] JOHNSON, Paul. História dos Judeus, Imago, 1995, p. 257
[18] Disponível em <http://www.lusosofia.net/textos/marx_questao_judaica.pdf>. Acesso em 22/09/2011.
[19] JOHNSON, Paul. Op. cit. p. 293
[20] Ibid. p. 294
[21] Ibid. p. 295
[22] Idem
[23] REALE, Miguel. “Formação da Política Burguesa”, José Olympio Editora, 1ª edição, 1934, p. 94
[24] Idem. Op. cit., p. 100.
[25] FANFANI, Amintore. Op. cit. p. 94
[26] Denzinger, 281
[27] Denzinger, 747
[28] Denzinger, 764
[29] Denzinger, 906
[30] Denzinger, 2546
[31] JONES, E. Michael. The Jewish Revolutionary Spirit. Fidelity Press. Indiana. 2008, p. 100
[32] FANFANI, Amintore. Op. cit. p. 94
[33] Ibid. p. 119
[34] Ibid. p. 126
[35] On Kingship (II, 3)
[36] FANFANI, Amintore. Op. cit. p. 109
[37] II-II, q. 55, art. 6
[38] II, I, 96, Art. 2, ad 2

Mulher acusa vizinha de racismo por causa de uma boneca



Londres (Inglaterra) - Uma mulher de 65 anos foi convocada a comparecer perante um tribunal em Londres, acusada de crime racial. A convocação foi efita depois que Jena Mason colocou uma boneca negra na janela e entrou em uma longa disputa judicial com um vizinho e sua esposa, que tem ascendência jamaicana.

Rosemarie O'Donnell se queixou à polícia depois que Mason colocou um brinquedo "racialmente ofensivo" em sua janela. A primeira acusação foi de assédio racial agravada. O'Donnel também descreveu a boneca, que fica no andar térreo a casa da vizinha, como "ameaçadora e abusiva". A reportagem é do Daily Mail.

O'Donnell, 48 anos, que mora na casa ao lado com o marido Stephen, se disse ofendida. Em agosto deste ano, ela prestou queixa na delegacia e entregou uma foto do brinquedo como prova do crime racial. Dois dias depois, Jena Mason foi presa e levada para interrogatório.

Em depoimento, ela afirmou que a boneca foi colocada na janela por sua neta, para que o cachorro não comesse o brinquedo. Jena foi liberada em seguida, mas na última sexta-feira recebeu um comunicado para comparecer perante o tribunal. Se condenada, a pena para o crime de racismo é de até dois anos em regime fechado.

"Para mim, ser acusada por isso é bobagem. Deve ser um mal-entendido. E o brinquedo já foi retirado da janela", afirmou Jena. No centro da discórdia entre as duas famílias está uma boneca conhecida como "bicho-papão", um brinquedo popular há décadas na Inglaterra. Sua origem vem de uma série de livros infantis e tornou-se polêmico nos últimos anos, quando ativistas argumentaram que a raça representa uma caricatura de afro-descendentes. (*)

(*) Ativistas negros são responsáveis pelas mais risíveis exteriorizações de complexos interiormente enraizados. É realmente impressionante como alguém possa se ofender por causa de uma boneca exposta na janela, como se a própria visualização de uma imagem racialmente semelhante a si mesmo retratasse uma auto-depreciação. Olhem para a boneca. Há algo de errado nela? Algum branco por ventura reagiria da mesma forma caso uma boneca branca fosse colocada à janela por algum negro? O esquerdismo não tem limites. Se você é contra um resultado de um concurso de miss universo, você é racista. Se você é contra cotas raciais, você é racista. Se você expõe uma boneca negra na janela, você é racista. Essas pessoas são de uma tirania a toda prova!

domingo, 25 de setembro de 2011

Itamaraty lamenta morte de africano espancado por PMs

O Ministério das Relações Exteriores divulgou neste sábado nota em que lamenta "profundamente" a morte do estudante Toni Bernardo da Silva, natural de Guiné-Bissau, ocorrida em 22 de setembro, em Cuiabá, no Mato Grosso. O estudante veio ao Brasil como bolsista de programa de intercâmbio oferecido pelo governo brasileiro a jovens de vários países africanos.

O ministro Antonio Patriota apresentou pessoalmente hoje, em Nova York, pedido de desculpas pela violência cometida contra o estudante bissauense ao embaixador Adelino Mano Queta, chanceler em exercício e futuro ministro da Justiça de Guiné-Bissau. Ele também afirmou que as responsabilidades pelo crime serão devidamente apuradas.

Segundo a Agência Brasil, o estudante havia se desligado da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) em fevereiro. Ele cursava economia por meio do Programa Estudante Convênio de Graduação, uma parceria entre os ministérios da Educação e das Relações Exteriores, e deveria terminar os estudos neste ano.

A UFMT informou, por meio de nota, que no ano passado o aluno apresentou problemas pessoais e dificuldades de estudo, que o levaram à reprovação. A Pró-Reitoria de Ensino de Graduação tentou ajudar Toni Silva na resolução de seus problemas, oferecendo acompanhamento psicológico. Contudo, não houve adesão plena do estudante ao acompanhamento, o que levou ao desligamento dele do programa por causa de mais uma reprovação.

Na próxima segunda-feira, será realizado um ato na universidade em repúdio à violência cometida contra o estudante africano.

O caso

A Polícia Civil prendeu em flagrante dois policiais militares e um rapaz suspeitos de espancar e matar um estudante africano na noite da última quinta-feira em um restaurante no bairro Boa Esperança, em Cuiabá. De acordo com a polícia, o estudante de Guiné-Bissau teria abordado um casal no restaurante para pedir R$ 10.

Em seguida, ele teria sentado em uma cadeira ao lado dos dois e teria se aproximado da namorada do rapaz, tentando, em seguida, agarrá-la. Sérgio Marcelo Silva da Costa, 27 anos, namorado da garota, teria revidado e entrado em luta corporal com o rapaz.

Ao verem a briga, outros dois clientes anunciaram serem policiais militares e imobilizaram o estudante. No entanto, os três teriam passado a desferir socos e pontapés contra ele.

O delegado Antonio Esperandio informou que, segundo testemunhas, o estudante aparentava estar sob efeito de drogas ou embriagado. Exames toxicológicos, de alcoolemia e necropsia foram requisitados ao Instituto de Medicina Legal (IML). Ele tinha passagens na polícia pelos crimes de furto e ameaça.

Os suspeitos foram indiciados por homicídio doloso e o inquérito deverá ser concluído em dez dias. (*)

(*) Este governo de nosso país é de uma canalhice a toda prova. Oferece preciosa ajuda para africanos, com bolsa em universidade federal, ajuda psicológica, tudo de graça, enfim, mas relega os próprios nacionais ao segundo plano. E o pior de tudo que oferece todos esses sórdidos privilégios com o dinheiro dos nossos impostos, sem nenhuma investigação preliminar do histórico e da capacidade da pessoa, importando, neste caso particular como provavelmente em vários outros, em completo desperdício de recursos públicos, na mais patente imoralidade. Provavelmente só pelo fato de ser negro, já que o nosso governo só privilegia pessoas que possam ser classificadas sumariamente como "minoria desfavorecida", pouco importando a idoneidade da pessoa. Ainda que a pessoa seja um tremendo bandido, drogado e com passagens de furto e ameaça só aqui no Brasil, ela é tratada a pão-de-ló pelo governo brasileiro. O africano em questão mexeu com a mulher dos outros e acabou selando o próprio destino. Mas como o nosso governo é uma piada, quer rigor nas investigações e ainda faz questão de se desculpar formalmente ao chanceler africano por conta do assassinato deste bandidão. É realmente um governo bandido se desculpando pela morte de seus pares bandidos...

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Reflexões sobre o Preconceito

Roberto Cavalcanti

INTRODUÇÃO

Ultimamente, a sociedade ocidental vem tendo seus fundamentos minados por um movimento contra-cultural que convencionou-se denominar como o “politicamente correto”. Os mentores desse movimento são ideólogos marxistas que criaram um engenhoso meio de adestrar a população vencendo-a pela linguagem, com o propósito de obter sua rendição cultural, subvertendo as relações sociais no âmbito da sociedade tradicional. A lógica do movimento é clara: promover a igualdade através de uma silenciosa guerra cultural. Mudam a linguagem para controlar a comunicação, recriando o próprio idioma, revisando e subvertendo conceitos-chave a fim de acomodar a sociedade a um viés igualitário.

Assim, mudando a linguagem dão nova roupagem à interpretação dos fatos, antes tratados de maneira neutra, são agora reinventados pela ideologia, revestida pela ética do marxismo. Desta forma, a comunicação não é mais um fenômeno espontâneo, geralmente vindo de baixo pra cima, mas, ao contrário, impositivo, resultado de técnicas de adestramento coletivo imprimidas pela ideologia dominante. Quando se fala do preconceito enquanto fenômeno a ser estudado no âmbito ideológico, não se fala do seu verdadeiro sentido etimológico. A etimologia da palavra como um “conceito ou opinião formada antecipadamente, sem maior ponderação ou conhecimento dos fatos. Calcado no francês préconçu"[1] é então substituída por outro significado: aversão e intolerância, geralmente dirigida contra grupos minoritários supostamente desfavorecidos. Desfigurado de seu real significado, o termo preconceito passou a abrigar um sentido completamente distorcido, para então ganhar a projeção social reservada aos propósitos do politicamente correto.

Combater o preconceito virou sinônimo de combater a “aversão”, o “ódio” e a “intolerância” a grupos minoritários, propiciando, assim, o surgimento de uma sociedade mais igualitária e promíscua, isto é, menos sensível às diferenças entre raças, religiões, sexos, preferências sexuais etc. Em uma simples operação de manipulação semântica, transforma-se a linguagem com o escopo de lucrar politicamente. É obra, portanto, de pura engenharia social, não apenas no Brasil, mas mundialmente. É nisso que consiste o fenômeno do politicamente correto. Uma revolução pela via da manipulação semântica.

E isso não é feito apenas com o termo “preconceito”, mas com outros termos como “tolerância” e “discriminação”, palavras que acabam sendo desintegradas de um contexto para serem seletivamente aplicadas ao sabor da ideologia igualitária. O termo “preconceito” ganha aqui mais relevo, pois ao contrário dos dois outros termos citados, é uma completa desfiguração semântica. É obra da revolução, do marxismo cultural, pois busca reeducar o indivíduo através de uma nova linguagem, mais aderente aos seus propósitos ideológicos, passando-se a cultuar o oprimido pela via da linguagem. O politicamente correto é, por assim dizer, o idioma oficial da esquerda; o idioma oficial do igualitarismo, e todo idioma para servir a tais propósitos deve ser bem comunicado.

E, assim, num toque de varinha de condão ideológica, como obra da revolução, uma palavra absolutamente neutra passou a portar uma fortíssima carga semântica negativa. Pode-se dizer seguramente que o “preconceito” se transformou no vício por excelência desta nova religião igualitária: o politicamente correto. Acusar alguém de “preconceito” é projetar-lhe o mal. Preconceito é uma verdadeira heresia da sociedade contemporânea. Incorrer em “preconceito” é simplesmente praticar “o mal”. Isto se explica naturalmente porque ter ou não preconceitos é interpretar a nova ordem moral desta nova sociedade, que acabou superando conceitos como “bem” e “mal”, que passam a ser termos relativos e ultrapassados. A igualdade imprime esta nova ordem ética – do ter ou não ter preconceito – para moldar as relações sociais contemporâneas.

Como visto, na luta contra os preconceitos ocultam-se os estandartes vermelhos do marxismo cultural e sua ferramenta verborrágica do politicamente correto. Trata-se, pois, da tentativa do triunfo sobre a estrutura tradicional da linguagem dando lugar a uma nova ordem semântica a ser comunicada: a utopia semântica que encontra no “preconceito” sua representação mais fiel. Com efeito, o recorrente uso da palavra “preconceito” vem a significar uma verdadeira guerra contra a tradição; uma guerra aos costumes tradicionais, visando apagar os seus vestígios para a implantação de uma nova sociedade: a sociedade igualitária, que é caracterizada pela ausência de toda sorte de distinções.

Deste modo, as presentes linhas visam demonstrar que a demonização do “preconceito” responde por um processo de decomposição intelectual da sociedade. Em outras palavras, sintoma de completo retardamento coletivo.

O QUE É PRECONCEITO?

Preconceito não é ódio. Nem aversão. Nem intolerância. É bem verdade que determinada pessoa pode, sob o véu do preconceito, encobrir sentimentos de ódio, aversão ou intolerância, mas o juízo extraído de uma comunicação nem por isso tem o condão de distorcer o significado de determinado termo. Por exemplo: uma determinada tese pode muito bem soar como absurda, mas nem por isso “tese” significa “absurdo”. A comunicação tornou-a absurda, mas nem por isso a tese perdeu seu significado de tese. Com o preconceito é a mesma coisa. Não é a percepção do sujeito que altera o significado do objeto, que permanece unívoco. Não é porque um carro pode ser usado como arma que vou chamar um carro de arma. Carro não é arma. Assim, é completamente equivocada a idéia de tomar preconceito como sinônimo de ódio, aversão ou intolerância.

Preconceito, como morfologicamente se explica, funciona como um juízo pré-concebido, como uma idéia não muito amadurecida sobre determinado objeto. Esta idéia formulada sem muita segurança encontra-se em estado de tensão com um conceito. É um estado de tensão, pois não há segurança ainda firme na formulação desta idéia. O que caracteriza o preconceito é justamente isso: ao contrário da ciência, que é conhecimento certo e seguro, o preconceito é conhecimento inseguro. Mas nem por isso deixa de ser conhecimento. Preconceito pertence ao mundo das idéias. Por isso é sempre imaginário, abstrato e nunca concreto. Fosse concreto, já não seria mais preconceito, mas conceito. Preconceito pode, então, significar premissa; pressuposição; proposição; previsão; tese.

Tentar eliminar preconceitos de alguma pessoa é uma luta perdida, pois o preconceito é da natureza humana. É um equívoco pensar que mesmo uma criança poderá ser educada livre de preconceitos. Como acentua Theodore Dalrymple em seu livro “In Praise of Prejudice”: “uma criancinha, constantemente consultada sobre seus gostos e desgostos, aprende que a vida é e deve ser governada por gostos e desgostos. Ela não é livre de preconceitos simplesmente porque é livre dos preconceitos dos seus pais. Pelo contrário, ela é uma escrava de seus próprios preconceitos.”[2]

O QUE HÁ DE IMORAL NO PRECONCEITO?

Rigorosamente nada. Faz parte da nossa natureza elaborar cálculos psíquicos tendentes ao enfrentamento de determinadas situações. Um exemplo é o cão pitbull. Pela experiência somos ensinados a evitá-los, pois geralmente são cães agressivos e perigosos. Isso não significa que todos os cães desta raça sejam perigosos, mas devido a um número substancial de casos que fez a sua má fama, é perfeitamente razoável que os evitemos. Sendo assim, longe de serem imorais, determinados preconceitos podem servir como nortes morais, já que nos aproximam do bem da vida, e dos seus consectários, como o instinto de auto-preservação, que é o princípio basilar da moral. Por conseguinte, o preconceito ao cão pitbull não pode ser imoral. Pelo contrário, ele tende a ser moral. Todo tipo de preconceito que se aproxima da norma da prudência tende a ser, igualmente, moral.

Entretanto, em teoria o preconceito em si não pode ser bom nem mau, pois tudo depende do caso concreto a ser enfrentado, e tal valor somente pode ser tomado na medida em que se afastar ou não da reta razão. Quando se aproxima da reta razão, o preconceito é certo e moral. Quando se afasta, o preconceito é errado e imoral. Deste modo, seu valor, em regra, só pode ser medido na prática. O erro moral do preconceito não está no objeto, mas no sujeito. Como assim? O erro na formulação deste tipo de preconceito não está no próprio preconceito, mas na pessoa que o comunica, quando visivelmente o faz para mascarar sentimentos de ódio irracional. O erro, assim, não está no preconceito, mas na comunicação.

Na mesma medida em que é tola uma pessoa que faz o mau uso de um preconceito, é sábia aquela pessoa que faz bom uso de preconceitos. De um modo geral, entretanto, arrisco em afirmar que há sabedoria na maioria dos preconceitos.

GENERALIZAÇÃO. REGRA E EXCEÇÃO. EXCEÇÃO E REGRA

Muitos são aqueles que afirmam que não se pode generalizar, e, portanto, preconceituar, pois existem exceções. Chegam a afirmar que toda generalização é burra, como se esta afirmação ambígua não fosse em si uma generalização (!)

Generalizações, no entanto, são práticas inevitáveis e consistentes com a experiência e a observação. O raciocínio científico invalida o argumento em defesa das exceções, pois o pensamento científico encontra consistência quando se demonstram regras e não exceções. O problema de quem pensa que toda generalização seja burra é estar justamente na contramão do pensamento científico. Pois estas pessoas não raciocinam através das regras, mas através das exceções. Vejamos por exemplo o que acontece com a produção de uma vacina. Quando um cientista busca uma vacina contra determinada doença, certamente estará ciente que haverá pessoas que não desenvolverão anticorpos com a introdução da vacina em seu organismo, mas o seu raciocínio funciona no sentido de que a maioria das pessoas deverá desenvolvê-los e não de que a minoria não irá desenvolver. Assim, mesmo que a eficácia da vacina não seja completa, ela é parcialmente válida. Quando, ainda, fazemos uma pesquisa, manipulamos dados estatísticos, que dão uma indicação próxima da realidade. Isso é generalizar.

Deste modo, cai por terra o argumento dos "não-generalizadores" de quererem se guiar pelas exceções, pois tal raciocínio está na contramão da ciência e do bom senso, pois nenhum cientista busca tirar conclusões da eficácia de determinada vacina com base em exceções. Tampouco as conclusões estatísticas podem ser invalidadas por existirem exceções. Regras são regras, e exceções não guiam nossas conclusões.

Entretanto, a mídia, obsequiosa à atmosfera do marxismo cultural e também maldosamente, manipula a opinião pública invertendo tal lógica. Fazem da exceção a regra e da regra a exceção.

Um exemplo são crimes motivados por homofobia. Crimes motivados por homofobia são raros e episódicos. A maior parte dos homossexuais é vítima de seus próprios parceiros. Apesar disso, quando há um crime motivado por homofobia, a mídia não hesita em apresentá-lo com uma superexposição tal como retratasse a regra, embora seja uma exceção. Já quanto à questão da doação de sangue por parte dos homossexuais, que estatisticamente formam uma proporção maior de contaminados por AIDS comparada a sua população geral[3], embora o contágio seja regra nesses grupos, a mídia chega a cogitar haver preconceito, apresentando a transmissão de AIDS via sexo anal como exceção. Trata-se, pois, de uma verdadeira operação de maquiavélica inversão lógica.

ARGUMENTUM AD IGNORANTIAM

Richard Weaver, em seu ensaio “Life without Prejudice” de 1965, expôs brilhantemente que a acusação de “preconceito” é formulada usualmente para impedir um julgamento, valendo-se do argumentum ad ignorantiam.

Significa isso um argumento endereçado à ignorância. Aqueles que são culpados do argumentum ad ignorantiam professam a crença em algo porque seu oposto não pode ser provado, ou afirmam a existência de algo porque a coisa pode possivelmente existir. Exemplo: se é possível que exista vida em Marte; portanto, vida realmente existe em Marte. Outro: você não pode provar pelo método estatístico e quantitativo que homens não são iguais. Portanto, eles são iguais. Você não pode provar que os homens são naturalmente maus. Portanto, eles são naturalmente bons. E assim em diante.

Falando genericamente, esse tipo de raciocínio falacioso procura tirar vantagem de um oponente confundindo o que é abstratamente possível com o que seja realmente possível ou o que realmente exista. Expressado de outra forma, ele substituiria o que é possível crer em teoria pelo que nós temos algumas bases, muito embora não decisivas, sobre o clamor de que o segundo não pode ser provado, removendo, assim, o “preconceito”.[4]

PRECONCEITO SÃO SEMPRE NÃO-RAZOÁVEIS POR SEREM IRRACIONAIS?

O Professor de Lógica, em Princeton, John Grier Hibben, explicou pelos idos de 1911 que nem sempre o preconceito é um julgamento não-razoável. Segundo ele, o preconceito é simplesmente um julgamento não pensado. Um julgamento não-razoável, prossegue, é, obviamente, contrário à razão e, portanto, a própria razão deve repudiá-lo. Mas o julgamento que é simplesmente não pensado pode provar no curso dos eventos ser eminentemente razoável, e como tal até em sua forma não pensada pode servir a um propósito mais útil em nosso pensamento.[5]

Como ele destaca com brilho:

Esses julgamentos são absolutamente indispensáveis na economia de nossa vida mental. Se nós excluíssemos todos os julgamentos que não são acompanhados por uma prova satisfatória de sua validade, um desperdício tremendo de tempo e energia inevitavelmente resultaria. Por isso é uma lei fundamental de nossa atividade intelectual que o processo da razão pelo qual nós chegamos em certas conclusões freqüentemente perdem-se da memória: mas as conclusões mesmas permanecem como um permanente depósito de conhecimento.”[6]

Com efeito, o ser humano não é uma máquina nem um computador. O ser humano não tem a capacidade de armazenar por toda vida todo tipo de conhecimento. O ser humano não é só razão. Ele é impulso e toma decisões pautadas não somente na razão. Caso as decisões do ser humano fossem apenas de fundo racional, estaríamos numa utopia racionalista e os seres humanos não seriam mais humanos, mas computadores.

O QUE É ESTEREÓTIPO?

O preconceito é muito aproximado da idéia de estereótipo. Um estereótipo não é o preconceito em si, mas uma conseqüência do preconceito. O preconceito é a causa, enquanto o estereótipo é o efeito. Estereotipar significa dar forma mais ou menos fixa ou inalterável sobre objetos em observação. Ora, o estereótipo comumente se baseia num juízo formado acerca de determinado fato pela sua observação sistemática e repetitiva.

Trago aqui a opinião do sociólogo Steven Goldberg:

O estereótipo é originado de alguma realidade; não é arbitrário. [ ] Estereótipos são figuras abstraídas da realidade; elas são versões da quintessência da realidade e devem representá-la. Isso não quer dizer que estereótipos não podem mudar; eles podem mudar, tanto quanto as realidades que eles representam.”[7]

[...]

Nenhum estereótipo é 'arbitrário' ou incorreto como observação; todo estereótipo é 'real' naquilo que observa como comportamento ou propensão que é, em realidade, mais associado com o grupo estereotipado do que com outros grupos (quais sejam suas causas).”[8]

[...]

Ignorar o estereótipo para pretender que não seja verdade no sentido que nós discutimos, ou assumimos sem evidência que o comportamento observado deva ter uma explicação puramente social, é proceder na direção oposta daquela que a ciência reclama. A ciência reclama que nós façamos observações e então tentemos explicá-las pela evidência, não pelo desejo e ideologia.”[9]

PRECONCEITO ENQUANTO TÉCNICA DE ENGENHARIA SOCIAL

Richard Weaver afirma que são as doutrinas de Moscou as fontes e origens da grande pressão para erradicar o “preconceito”.[10] Segundo este estudioso, os militantes comunistas fazem isso para produzir um ceticismo social generalizado para que, logo a seguir, possam impor uma reconstrução dogmática no mundo.[11] Ele afirma, igualmente, que o objetivo destes comunistas é transformar o povo em massa e apagar aquelas distinções que são a expressão desta idéia[12], sejam elas de ordem econômica, moral, social ou estética[13]. John Grier Hibben destaca que amamos ou detestamos alguém pelos seus preconceitos. Extrair os preconceitos de alguém é fazê-lo um depósito de lugares-comuns. A individualidade, segundo o Professor Hibben, é a projeção de nossos preconceitos. Remova os preconceitos e o indivíduo é diluído na multidão. Caráter sem um traço de preconceito é insípido e um indivíduo assim tomado perde intensidade de convicção[14].

A guerra aos preconceitos é, como vemos, uma operação mental de anulação da individualidade e socialização do indivíduo.

Mais uma vez o Professor Hibben:

São também os preconceitos que sublinham o caráter, o preconceito do bom senso e do bom gosto, que freqüentemente opera como um salva-guarda contra as tentações da razão; pois a razão tem suas tentações, assim como as paixões – não verdadeira razão, mas o sutil casuísmo da razão.”[15]

A idéia engendrada de privar a sociedade de preconceitos é, na verdade, a de transformá-la numa massa passiva de cidadãos covardes, débeis, sem espírito criativo, reprodutores de lugares-comuns. A ideologia igualitária subjacente a uma sociedade sem preconceitos exige isso anulando o indivíduo ao massificá-lo. A moral desaparece, pois a ética da igualdade passa a encadear as relações sociais. Eis então uma sociedade sem virtude, sem brilho e sem heroísmo. Como acentua o Professor Hibben, “se a natureza humana fosse privada do preconceito, os épicos da moralidade nunca seriam escritos.”[16] Thedore Dalrymple afirma que “o homem sem preconceitos, ou especialmente, o homem que se declara como tal, é um homem que fica apavorado de ser pensado primeiro dogmático, e segundo, tão fraco de mente, tão desprovido de individualidade e poder mental, que não pode pensar por si mesmo. Por suas opiniões, ele tem que retroceder em fragmentos de sabedoria, ou mais propriamente insensatez, que constitui o preconceito.”[17]

Uma sociedade sem preconceitos é uma sociedade infantil, pois a criança não possui experiência quando instada a tomar decisões rápidas e impensadas, e, desta forma, seus preconceitos são precários. Pela falta de experiência, a criança escolherá sempre a mesma coisa, a coisa que lhes seja mais imediatamente atrativa ou gratificante. Assim, uma sociedade sem preconceitos é uma sociedade previsível e mais facilmente governável, em outras palavras, mais fácil de ser enganada.

A ÉTICA POR TRÁS DO COMBATE AO PRECONCEITO

A ética por trás da guerra ao preconceito é o igualitarismo. Os socialistas querem inculcar nas mentes das pessoas que estas são iguais entre si e que entre elas não deve haver diferenças, e, portanto, preconceitos.

Os pré-julgamentos são fundados geralmente na experiência e observação, o que vem a nortear futuras decisões. O igualitarismo é, portanto, inimigo da moral e das mais finas tradições. Ele iguala o bem ao mal e vice-versa, destruindo a moral. Ele rompe com os fundamentos da sociedade, revolucionando os costumes. Pode-se interpretar que a ética da igualdade venha a suplantar os antigos preconceitos.

Logo, podemos concluir que tal ética, por afrontar a natureza humana, só pode vir à tona através de uma ditadura totalitária, cujas conseqüências já conhecemos de bom tempo da União Soviética, China, Camboja, Cuba etc.

DECISÕES ARBITRÁRIAS BASEADAS EM PRECONCEITOS CORRETOS

Da mesma forma que existem decisões justas baseadas em preconceitos, existem decisões arbitrárias baseadas em preconceitos. O aborto é um exemplo. Muitos nazistas costumam pré-julgar o futuro de um feto de um favelado predestinando-o ser um futuro bandido, ou pedinte ou ter um futuro desastroso que comprometa a sociedade, a fim de justificar tal crime. Para tanto, chegam a apresentar pesquisas respaldando a premissa de que o aborto diminui o crime, o que pode ser até cientificamente correto, mas nem por isso moralmente bom. O Governador do Rio mesmo defendeu o aborto como instrumento de política criminal.[18] Assim, um preconceito pode ser correto na maioria das vezes, mas a decisão política nele fundamentada pode ser errônea. Uma coisa é o pré-julgamento ser correto. Outra coisa é a decisão baseada neste pré-julgamento. São duas coisas diferentes. Um preconceito pode, deste modo, fundamentar decisões corretas e também decisões arbitrárias. Isto, por si, não desmerece a necessidade dos preconceitos.

PRECONCEITO: POTÊNCIA. DISCRIMINAÇÃO: ATO

Um artigo escrito pelo Padre Luís Carlos Lodi em 2001, chamado “(Des)orientação Sexual[19], é muito preciso sobre a necessidade de se discriminar. Ele destaca neste artigo que discriminar é preciso:

A discriminação é uma das práticas mais normais da vida social. Todos nós a praticamos dia a dia. Ao aplicar uma prova, o professor discrimina os alunos que tiraram notas altas daqueles que tiraram notas baixas. Aqueles são aprovados. Estes são reprovados. Ao escolher o futuro cônjuge, as pessoas geralmente fazem uma discriminação rigorosa, baseadas em diversos critérios: qualidades morais, inteligência, aparência física, timbre de voz, formação religiosa etc. Entre centenas ou milhares de candidatos, somente um é escolhido. Os outros são discriminados. Ao selecionar seus empregados, as empresas fazem uma série de exigências, que podem incluir: sexo, escolaridade, experiência profissional, conhecimentos específicos, capacidade de relacionar-se com o público etc. Certos concursos para policiais ou bombeiros exigem, entre outras coisas, que os candidatos tenham uma determinada altura mínima, que não ultrapassem uma certa idade e que gozem de boa saúde. Todos esses são exemplos de discriminações justas e necessárias.

Outros poderiam ser dados. O ladrão que é apanhado em flagrante é preso. A ele, como punição pelo furto ou roubo, é negada a liberdade de locomoção, que é concedida aos demais cidadãos. A prisão é um lugar onde, por algum tempo, são discriminados (com justiça) aqueles que praticaram atos dignos de discriminação.”

Em verdade, a ausência de discriminações tornaria a sociedade tão promíscua quanto insustentável.

Sabemos, no entanto, que na prática é impossível o ser humano viver sem julgamentos, especialmente aqueles estéticos e morais do tipo que não possam ser deduzidos somente dos fatos.

O preconceito, assim como também o conceito, são potências das quais a discriminação é mero ato.

ORIGEM HISTÓRICO-FILOSÓFICA DA GUERRA AO PRECONCEITO

Embora o marxismo cultural tenha oferecido maior consistência na luta contra os preconceitos, as origens desta guerra ao preconceito são mais remotas. O Iluminismo inaugurou uma era em que a razão foi colocada num pedestal para adoração. Impôs-se no contexto filosófico ocidental, o paradigma de que o conhecimento deveria exigir certeza, libertos dos modos habituais de compreensão. Dá-se o triunfo do empirismo e a rejeição, a partir de então, qualquer tipo de juízo não fundamentado na razão, tais como lições religiosas e também os preconceitos, os primeiros qualificados como superstições e estes últimos depreciados como errôneos, infelizes ou expressões de menoridade humana, podendo ser evitados através de uso disciplinado e metódico da razão. Em suma, se o conhecimento não for certo e comprovado é descartado. O parâmetro que mede o conhecimento não é mais sua verdade, mas sua experimentação.

Foi, então, a partir do Iluminismo que o conceito de preconceito se tornou pejorativo, especialmente com o cartesianismo.

O filósofo Gadamer rejeita esta concepção iluminista de levar em consideração apenas a razão em-si e por-si-mesma. Segundo ele, os preconceitos não podem ser rechaçados em virtude da finitude, historicidade e limitação da compreensão humana. Para ele, trata-se de um otimismo ingênuo a idéia segundo a qual pensar por si mesmo significa nada receber ou tudo reconstruir a partir de um grau zero do pensar, ou seja, anular a sua subjetividade histórica.

É um fato que a compreensão humana parte sempre de conceitos prévios, que devem explicitar-se e, se não se confirmarem, devem ser substituídos por outros mais adequados[20].

ANIMAIS TAMBÉM NUTREM PRECONCEITOS

Um exemplo clássico de preconceitos entre animais é o experimento de Pavlov[21], que acabou por desnudar os preconceitos entre animais. De acordo com tal experimento, Pavlov utilizou a resposta de salivar de cachorros para estudar um tipo de aprendizagem. Pavlov sabia que os cachorros salivavam naturalmente na presença da comida. Ele então chamou a comida de “Estímulo Incondicionado” e a salivação de “Resposta Incondicionada”. Esta correlação entre o estímulo incondicionado e a resposta incondicionada Pavlov chamou de “Reflexo Incondicionado”.

Um estímulo neutro, que inicialmente não era capaz de produzir a resposta de salivar, era então apresentado ao animal imediatamente antes da comida. Depois de uma série de pareamentos dos estímulos, os animais eram então capazes de aprender uma associação entre este estímulo neutro e o estímulo incondicionado. Desta forma o estímulo neutro foi chamado de estímulo condicionado, pois condicionou o animal a fazer uma associação. Este tipo de aprendizagem Pavlov chamou de “Reflexo Condicionado”.

Posteriormente Pavlov mudou tanto os estímulos condicionados (utilizando sinos, por exemplo) quanto os estímulos incondicionados (outros tipos de comida), chegando nos mesmos resultados.

É interessante observar que este cientista deduziu esta forma de aprendizagem quando os animais salivavam em sua presença, mesmo sem a comida, o que sem dúvida nenhuma é uma reação preconceituosa.

Fato é que bastava um estímulo para se ter uma reação pré-concebida. Tanto o reflexo condicionado quanto o incondicionado tornaram-se preconceitos entre aqueles cães de que haveriam que degustar comida. Nada implicava que os cães realmente iriam comer, mas ao escutarem os estímulos reagiam preconceituosamente. Reflexos condicionados ou incondicionados sem dúvida nenhuma são espécies de preconceitos.

ALGUNS EXEMPLOS DE PRECONCEITOS

Quando você está no Rio e vê um negro, logo imagina que ele torça para o Flamengo, ainda que ele não torça realmente para esse time, este preconceito é fundado na experiência, uma vez que a maioria dos negros cariocas visivelmente torce para o Flamengo.

Preconceitos não necessariamente são com pessoas, mas também com situações. Por exemplo, quando saímos de casa com guarda-chuva, ao nos depararmos com nuvens escuras bem carregadas tapando o sol, associamos aquilo a uma probabilidade de chuva, e logicamente nos acautelamos em acordo.

Uma investigação policial é farta em preconceitos, pois a maioria das presunções e deduções são feitas a partir de pistas deixadas pelo criminoso, que acabam por servir à polícia para interpretações com reflexão imperfeita. Deste modo, da mesma forma que o preconceito ajuda a salvar, ajuda a condenar.

Um exemplo clássico de preconceito é o de uma pessoa apressar seu passo por ver uma pessoa de má aparência seguindo-a. Ela não vai andar devagar para possivelmente ser assaltada, mas vai apressar o passo para evitar o assalto. Portanto, o preconceito é absolutamente natural e instintivo.

PRECONCEITO COMO DIREITO NATURAL

Preconceituar é inevitável. Muitas das vezes uma inclinação instintiva, operando como um mecanismo de auto-defesa. Exemplos são inúmeros. Quando escolhemos previamente determinados locais a serem freqüentados ou pessoas a serem evitadas. Baseando-se na idéia de estereótipo, o ser humano tira conclusões antecipadas sobre determinado objeto e, com tais conclusões psiquicamente enraizadas, tende a tomar rápidas e objetivas decisões. Assim, o preconceito serve como norma de prudência para onde quer que rumamos.

PRECONCEITO NÃO É PECADO

Se o preconceito, conforme já demonstrado, não pode ser por si um mal moral, não é pecaminoso. Deus não é preconceituoso simplesmente por ser onisciente, de modo que seus juízos são todos certos e seguros. Não há possibilidade teológica de Deus fazer julgamentos antecipados. Isto não significa que nós humanos, ostentando nossa qualidade natural, não podemos exercê-los. Foi a sociedade iluminista que demonizou o preconceito pela sua apologia ao empirismo e ao racionalismo extremado, que não aceita quaisquer opiniões sem fundamento científico. Não é matéria da religião católica, porém, exorcizar os preconceitos. Isso provém de ideologias estranhas à religião.

CONCLUSÃO

Um grande malefício no combate aos preconceitos é o de minar a capacidade reflexiva do ser humano, por censurar seu espírito crítico. A capacidade crítica do ser humano é condicionada por certas barreiras que ele não pode romper, sob pena de chegar a conclusões ideologicamente indesejadas.

Para encerrar, consignemos algumas palavras tecidas por Edmund Burke em “Reflexões sobre a Revolução na França” a respeito do preconceito:

Preconceito é de pronta aplicação na emergência; ele previamente engaja a mente em um curso fiel de sabedoria e virtude, e não permite que o homem hesite no momento da decisão, cético, embaralhado e não-resolvido. Preconceito torna a virtude de um homem seu hábito; e não uma série de atos desconexos. Através de preconceito justo, sua responsabilidade se torna uma parte de sua natureza.”[22]



[1] Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa, Antônio Geraldo da Cunha, p. 629

[2] DALRYMPLE, Theodore. In Praise of Prejudice. Brief Encounters. p. 20.

[3] No Brasil, são em torno de 28% de contaminados para uma população de apenas 1%.

[4] WEAVER, Richard. Life Without Prejudice and other essays. Henry Regnery Company. pp. 06-07.

[5] HIBBEN, John Grier. A Defense of Prejudice and other essays. Charles Scribner’s Sons. p. 02.

[6] Idem. pp. 02-03

[7] GOLDBERG, Steven. Why Men Rule. p. 105

[8] Ibidem, p. 207-208.

[9] Ibidem, p. 198-199.

[10] WEAVER, Richard. Life Without Prejudice and other essays. Henry Regnery Company. p. 02.

[11] Idem.

[12] Ibidem, p. 03.

[13] Idem.

[14] HIBBEN, John Grier. A Defense of Prejudice and other essays. Charles Scribner’s Sons. p. 13.

[15] Idem, 14.

[16] Idem, 15.

[17] DALRYMPLE, Theodore. In Praise of Prejudice. Brief Encounters. p. 04.

[19] Disponível em <http://www.providaanapolis.org.br/desorsex.htm> Acesso em 10/06/2011

[21] Disponível em <http://fotolog.terra.com.br/neuroscience:53> Acesso em 10/06/2011

[22] BURKE, Edmund. Reflections on the Revolution in France. Penguin Books. p. 183.

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